Correr é um movimento natural, mas exige um corpo resiliente. Na fisioterapia, costumamos dizer que a corrida é uma sucessão de saltos em uma única perna. Se a sua estrutura não está preparada para absorver essa carga repetidamente, o "elo mais fraco" da corrente acaba cedendo.
Entender as lesões não deve servir para te assustar, mas para te dar consciência corporal. Como fisioterapeuta da MoveOn, listei os problemas mais comuns e, o mais importante, como evitá-los.
1. As 3 Vilãs do Corredor
Muitas lesões surgem pelo chamado overuse (uso excessivo), onde a carga de treino supera a capacidade de recuperação do tecido.
- Canelite (Síndrome do Estresse Tibial): É aquela dor aguda na parte interna da canela. Geralmente ocorre por uma inflamação no periósteo (a "capa" do osso) devido ao impacto excessivo e falta de força nos músculos da panturrilha.
- Joelho de Corredor (Síndrome Patelofemoral): Uma dor na frente do joelho, especialmente ao descer escadas ou ficar muito tempo sentado. Muitas vezes a culpa não é do joelho, mas de um quadril fraco que permite que o fêmur "rode" para dentro.
- Fascite Plantar: Uma dor intensa na sola do pé, logo ao acordar. É o sinal de que a fáscia (tecido que sustenta o arco do pé) está sobrecarregada por calçados inadequados ou rigidez muscular.
2. A Biomecânica da Prevenção: Onde a Mágica Acontece
Para prevenir essas patologias, não olhamos apenas para onde dói, mas para como o corpo se move de forma integrada.
- Cadência (Passos por minuto): Aumentar levemente a sua cadência (dar passos menores e mais frequentes) reduz a oscilação vertical. Quanto menos você "pula" para cima, menos impacto suas articulações recebem ao aterrissar.
- Aterrissagem Suave: Tente fazer o mínimo de barulho possível ao encostar os pés no chão. O som alto da passada é energia de impacto que não foi dissipada pelos músculos e acabou indo direto para o osso.
3. Fortalecimento: Sua Armadura Biológica
A corrida gasta o músculo; o fortalecimento o reconstrói. Para um corredor, o treino de força é estratégico:
- Controle de Quadril: Fortalecer o glúteo médio é essencial para estabilizar o joelho.
- Propriocepção: Exercícios de equilíbrio em uma perna só treinam o cérebro a estabilizar o tornozelo rapidamente em terrenos irregulares.
- Core Estável: Um tronco firme evita que você "desperdice" energia balançando o corpo, mantendo a coluna protegida.
Conclusão: Ouvir o Corpo é Ciência
A dor é o sistema de alarme do seu corpo. Se ela aparece no início do treino e some no aquecimento, pode ser apenas uma adaptação. Se ela aumenta durante a corrida ou te faz mancar, é hora de parar e avaliar.
Prevenir é sempre mais rápido (e barato) do que reabilitar. Invista em mobilidade, força e descanso. Sua longevidade no esporte depende disso.
Por:
Paulo Henrique Cadorin
Fisioterapeuta
Crefito 103969-F
